O estranho mundo do canal Bem Simples

Assistindo ao canal Bem Simples em dias e horários variados, lembrei-me bastante da pesquisa da Via Embratel, que oferece TV paga nas comunidades onde o governo instalou UPPs. Ela revelou que o Discovery Home & Health era o favorito entre o público de recém-chegados à TV por assinatura, um verdadeiro chamariz da freguesia. O motivo: seu conteúdo é considerado muito informativo pelas mulheres. E elas querem dicas de como operar os afazeres domésticos, cuidar do marido, da família etc.
Essa cultura dos programas para a rainha do lar vem se generalizando. Ela se manifesta em atrações avulsas espalhadas pelas grades de diversos canais. O Bem Simples, entretanto, parece a expressão completa desse conceito. Toda a sua programação lembra o modelo de dona de casa idílico dos subúrbios americanos nos anos 60. Esse tipo de representação da felicidade emergiu há 50 anos. E ficou anacrônica, superada por diversas outras revoluções de comportamento. Por isso, o Bem Simples parece uma viagem no tempo.
Os cenários no canal são, em geral, cozinhas organizadas, ocupadas por mulheres impecáveis usando aventais e de prontidão para servir o restante da família “pratos feitos com amor”. Não há atrações sobre outros temas que não receitas de comida, de arrumação dos cabelos, de artesanato, de cuidados com os filhos etc. Até as vinhetas trazem informação sobre, por exemplo, qual a melhor maneira de armazenar o leite materno. O slogan do canal? “Você é o que você faz”.
Um exemplo: em “Homens gourmet”, os apresentadores frisam que estão preparando um prato “super-rápido”, “superfácil”, “superaromático”, que você tempera com sal “super a gosto”. Já num outro quadro, comandado por sete moças, “o risotinho é feito com carinho e energia boa”. É que “a gente não fica feliz se não passa o dia cozinhando”, explicam elas em coro, sorrindo, amigas. Ninguém usa proteção no cabelo, talvez dada a fé no asseio geral nesse mundo idealizado para ursinhos carinhosos. Se tudo isso já é estranho, o pior é a aposta num público infantil, que precisa ter cada passo apontado por uma televisão que tutela e jamais desafia.
Sei não. Sou mais a cozinha confusa e sujinha de “Larica total”, do Canal Brasil.
Kogut

Publicado em janeiro 13, 2012, em Canais fechados. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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